O estado de guerra declarado por Israel há menos de dez dias teve impacto diferente para o brasileiro Igor Galvão, militante do Movimento Brasil Popular. Quando o confronto na Palestina começou, ele estava no território, onde atuava como voluntário em um projeto internacional para diálogo, convivência e paz.
"O dia a dia dessas comunidades é totalmente tenso. Nós costumávamos falar que, na Palestina, não se faz planos, porque você não pode saber se no dia seguinte o posto de checagem vai estar aberto ou se vai poder entrar em Jerusalém. Você não sabe se no dia seguinte vai acontecer algum tipo de incursão militar em que você não vai poder sair de casa", contou ele em entrevista ao Brasil de Fato.
As equipes reúnem de 25 a 30 voluntários e voluntárias de países do mundo todo, que representam uma presença internacional atenta às garantias de direitos essenciais. Segundo o Paepi – Eappi, os grupos mais recentes notaram aumento das agressões, das quais, inclusive, também foram vítimas.
"O que vimos no chão, em nossos monitoramentos, é que, hoje em dia, a presença internacional tem sido muito importante, mas infelizmente não é suficiente para impedir que Israel cometa as violações. Mas o que ouvimos da população palestina quando conversamos é 'se você não estivesse aqui seria pior'", afirmou Galvão na conversa.
Dados recentes divulgados pelo Paepi – Eappi mostram que as tensões têm aumentado e que mais da metade das violações de direitos humanos ocorre contra pessoas palestinas, alvo em 57% dos registros. Em abordagens policiais, pontos militares de checagem, interações sociais e conversas, Igor Galvão acompanhou de perto como a violência chega ao território todos os dias.
"A eclosão não acontece dentro de um vácuo. Ela acontece dentro de um ambiente que é constantemente opressivo e coloca as populações em situação de humilhação", ressaltou o militante.
Leia a entrevista a seguir e ouça a conversa no tocador de áudio abaixo do título desta matéria.
Brasil de Fato: Que tipo de trabalho você estava fazendo na Palestina?
Igor Galvão: Eu estava na Palestina junto com o programa do conselho Mundial de Igrejas chamado Eappi, que, em uma tradução livre seria Acompanhantes Ecumênico nos Territórios de Palestina e Israel. É um programa que existe já há 20 anos nos territórios e foi um chamado das igrejas de Jerusalém pela presença internacional.
É importante dizer isso. Não é uma questão religiosa do ponto de vista 'judeus contra muçulmanos', é uma questão étnica. Palestinos também são cristãos e os cristãos palestinos também sofrem a mesma perseguição.
Então foi um chamado dessas igrejas porque elas estavam presenciando essa escalada de violência. Isso há vinte anos, durante a Segunda Intifada. Esse programa oferece um monitoramento da violação de direitos humanos. Nosso papel é monitorar as violações de direitos humanos constantes ali por parte do estado de Israel contra o povo palestino e também notificamos violações contra o povo israelense.
É um programa que tenta trabalhar nessa área, mas também oferecer a presença protetiva. O que é a presença protetiva? É, basicamente, você ter uma pessoa internacional no espaço onde essas violações ocorrem, para tentar coibir qualquer tipo de escalada de violência.
O que vimos no chão, em nossos monitoramentos, é que, hoje em dia, a presença internacional tem sido muito importante, mas infelizmente não é suficiente para impedir que Israel cometa as violações. Mas o que ouvimos da população palestina quando conversamos é ‘se você não estivesse aqui seria pior.’
Como era o dia a dia de trabalho?
Eu cheguei em Jerusalém oriental no dia 29 de agosto, muito antes desses ataques começarem. Nós tínhamos cinco times trabalhando em diversas cidades e eu fui para o time da cidade de Jerusalém.
A cidade de Jerusalém, segundo a legislação internacional, deveria ser dividida em duas, Jerusalém ocidental para o estado de Israel e Jerusalém oriental para a Autoridade Palestina. No meio, você tem o que chamamos de cidade velha de Jerusalém, que tem status de corpus separatum [termo em latim referente à zona da cidade que seria gerida internacionalmente segundo determinação da Organização das Nações Unidas (ONU)]
O que ocorre, de fato, naquela região, é que Jerusalém está totalmente anexada ao Estado de Israel. Então, mesmo Jerusalém oriental já não pertence mais à Cisjordânia como era antes. Ela é dividida pelo muro que a gente chama de muro da vergonha.
As nossas tarefas diárias estavam em algumas vertentes. Primeiro, acesso à educação. Fazíamos as rondas escolares, principalmente na cidade velha. As rondas escolares eram solicitadas pelas escolas da cidade velha de Jerusalém porque, no caminho para a escola, adolescentes de 12 a 16 anos eram hostilizados, eram parados, eram revistados pelo exército de Israel, que mantém vários postos de controle militar.
Alguns desses pontos são fixos e outros móveis, que nós também tentávamos identificar nas nossas caminhadas. Chegávamos por volta das 7 horas da manhã, às vezes um pouco antes, que era o momento que as crianças chegavam.
Elas tinham um trajeto muito específico, com entrada pelo Portão de Damasco ou pelo Portão do Leão. Todos confluem na Via Dolorosa, que é a via onde Jesus andou com a cruz. É um espaço muito importante e é o caminho da escola. Esse caminho da escola era muito violento.
Nos relatos dos diretores, tivemos uma queda na participação dos alunos e aumento na evasão ou nas famílias que não queriam mais deixar os filhos naquelas escolas dentro da cidade velha, porque diariamente você pode ser sorteado para ser revistado pelo exército de Israel.
O tipo de violência vai desde a solicitação para verificar a identidade - o que, de forma isolada, não é uma violência, mas observa-se que existe um alvo - ao enquadramento corporal; revista de bagagens e mochilas.
Outra coisa que tem acontecido é que essas escolas palestinas dentro de Jerusalém estão sendo forçadas pelo Ministério da Educação israelense a usar os livros didáticos de Israel e obviamente elas se recusam. Muitos soldados confiscam os livros das crianças no caminho para a escola.
Outra tarefa que tínhamos era a verificação dos postos de controle para a entrada na cidade de Jerusalém. Os principais são dois, no norte, o posto de Qalandia e no sul, o de Belém. Nesses postos, você tem pessoas entrando da Cisjordânia em Jerusalém para trabalhar. Vale lembrar que a mão de obra palestina é utilizada pelos israelenses.
A cidade de Jerusalém está isolada por um muro da Cisjordânia, então você não consegue passar se não for por esse posto de controle militar.
Fazíamos o monitoramento desses locais algumas vezes por semana, porque queríamos tanto pegar o acesso ao trabalho quanto o acesso à vida comum e, principalmente, o acesso à liberdade de culto.
Dentro de Jerusalém você tem a Mesquita de Al-Aqsa, que é o terceiro espaço local mais sagrado para os muçulmanos. Toda sexta-feira, que é um dia sagrado para os muçulmanos, eles vão para Al-Aqsa rezar. É um dia de feriado, um dia de folga, então, você tem milhares de pessoas vindo da Cisjordânia para dentro de Jerusalém para acessar o tempo religioso.
No posto de controle você tem a revista das suas malas em uma esteira, semelhante à de aeroporto, e depois você passa por algumas cancelas de metal, com um cartão magnético ou com a sua identidade, que você mostra para um soldado que vai fazer a liberação ou não.
Eles passavam por isso todos os dias. Nós percebíamos que, nos dias de trabalho, a rejeição era muito pequena. Mas, na sexta-feira, que era o dia de oração mais sagrado, a rejeição era imensa. O acesso à liberdade de culto era negado e isso era totalmente arbitrário.
Como estavam os dias anteriores ao início do confronto? Era possível perceber algum sinal de escalada das agressões armadas?
Não, nós não tínhamos a menor ideia, pegou todo mundo muito de surpresa. Agora, é importante dizer que o dia a dia dessas comunidades é totalmente tenso. Nós costumávamos falar que, na Palestina, não se faz planos, porque você não pode saber se no dia seguinte o posto de checagem vai estar aberto ou se vai poder entrar em Jerusalém. Você não sabe se no dia seguinte vai acontecer algum tipo de incursão militar em que você não vai poder sair de casa.
Fazer planos, para os palestinos, é algo muito difícil e isso está muito vinculado ao dia a dia de tensão. A eclosão não acontece dentro de um vácuo. Ela acontece dentro de um ambiente que é constantemente opressivo e coloca as populações em situação de humilhação.
Há algum tipo de normalização dessa violência?
Uma coisa que eu aprendi muito na Palestina e que eu sinto que é muito forte é a construção de uma identidade nacional palestina. Ela é muito arraigada e está muito presente na consciência das crianças, dos adolescentes e dos mais velhos.
É algo que não temos a dimensão, porque você conversa com todos os palestinos e eles têm essa compreensão e essa consciência. Então, eles não normalizam. Eles sabem o que passam e é muito interessante, porque, quando conversam com estrangeiros, querem falar sobre as vidas deles.
Quando eu não estava identificado e era só um turista para eles, diversas vezes, me pegava conversando com um palestino que queria falar sobre a vida dele.
Um episódio que foi o que mais me chocou, ocorreu quando eu estava voltando de Ramallah. Eu estava de folga e peguei um ônibus. Sentei ao lado de dois meninos palestinos que pareciam ter a minha idade, eu tenho 27 anos,
No final, estávamos conversando sobre a vida, um deles falou sobre a morte do irmão dele. Ele me contou que o irmão foi para Al-Aqsa e, em algum momento, os soldados mataram ele com um tiro de fuzil.
Ele me perguntou se eu queria ver uma foto e eu disse que sim, tudo bem. Mas não esperava pela foto que ele me mostrou, que era o irmão deitado no chão, todo ensanguentado, assassinado. Eu não consegui nem reagir àquilo. É muito difícil inclusive dizer 'sinto muito'. Porque, no momento você fala 'sinto muito', ele fala. 'Infelizmente, essa é a vida de todo palestino.’
O que é mais duro é que ele contou que o irmão fazia engenharia na faculdade, ele era um jovem, ele tinha todo um futuro pela frente. Muitas vezes a família tem restrições, são interrogadas, os pais são presos. Existe uma punição coletiva e, dentro das comunidades palestinas, existe um temor de, inclusive, conviver com aquela família, porque eles sabem que são os alvos.
A sociedade palestina tem uma base familiar muito grande e eu acho que parte dessa consciência nacional da opressão e dessa clareza vem também dessa relação familiar. As pessoas têm muita clareza e elas passam através da oralidade, contam as histórias dos avós para os pais, dos pais para os filhos. A sociedade palestina é muito resiliente, ela nunca normaliza
Como brasileiro, você sentiu receptividade? O Brasil é visto como um país de relevância e boas relações?
Vou começar dizendo que eu estava trabalhando com diversos europeus, noruegueses, dinamarqueses e o governo brasileiro foi o único que mandou um avião das Forças Aéreas para resgatar as pessoas, os meus colegas.
Eu saí com a minha organização e fui para a Jordânia. Nos pediram para fazer isso coletivamente e eu pensei na oportunidade de deixar a vaga para outra pessoa no voo brasileiro. Nenhum dos europeus teve essa oportunidade de escolher.
Em relação aos palestinos, quando alguém fala 'sou do Brasil', algumas pessoas arriscam o português porque têm família no Brasil. Eu ia na igreja da família que me recebeu e o padre era brasileiro e eles amavam ele.
Mesmo os brasileiros que são cristãos e sionistas que vão em peregrinação, muitas vezes nem entendendo totalmente o conflito, tratam muito bem os comerciantes que são árabes e palestinos. As pessoas gostam da gente e tem o fenômeno do futebol. Os palestinos amam futebol e veem no Brasil essa potência.
Pode até ser clichê, mas os brasileiros são muito queridos entre os palestinos e somos vistos também como um povo muito guerreiro.
Eu acho que o Brasil deve assumir, agora, um protagonismo nisso. Nós precisamos de uma voz moderadora e o Brasil pode ser essa voz moderadora. Os palestinos respeitam os brasileiros, os palestinos respeitam o governo do Brasil.
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